QUASE DIÁLOGOS
Terraplana
- Cara, não consegui dormir depois daquela cena: o sujeito, agressivo, dizia que a terraplana é um fato, uma verdade absoluta.
- Oxa, só faltou ele dizer que a gravidade é resultado da planície terrena.
- Pior, estava exaltado e misturou as coisas. Disse que o Malafaia era testemunha de Deus e que ascendeu aos céus para ver a terraplana e espalhar o novo evangelho aos descrentes.
- Tamo fodidos! Misturaram política com joias, religião com a bancada da bala, agronegócio com mineração mercurial, vandalismo com golpe. E misturaram a familícia com a compra de 51 imóveis em dinheiro vivo. Pois é, o dinheiro é vivo e eles também.
- É, parece que a compra de tantos imóveis é para expandir o loteamento da terraplana.
Devogado e devogada
- E não é que aquela advogada, no plenário do STF, disse que nunca gostou de política! Impressionante, se formou em Direito e diz não gostar de política. E o outro misturou Pequeno Príncipe com O Príncipe, Saint-Exupéry, e nem enrubesceu. Melhor, nem sabia o que é enrubescer.
- Pois é, acho que isso tudo é efeito da mamadeira de piroca, quem tomou delirou.
O empreendedor
- Fala, João. Há quanto tempo? Tudo bem com você? E os filhos?
- Sérgio, bom te ver. E você, tudo bem?
- Bem, empurrando minhoca na subida.
- Hehehehehe...acho que eu também, mas empurrando várias minhocas.
- É a vida não tá fácil.
- Para ninguém.
- E você conseguiu finalizar aquele projeto que tinha? Na última vez que nos falamos, você disse que estava com um empreendimento magnífico. Que iria impactar a cidade.
- Então, a coisa foi em frente, mas com muitos problemas. Você sabe: obter autorização da Prefeitura para tais projetos depende da boa vontade e da propina. Paguei uma grana para liberarem o projeto.
- Bem, a gente ouve falar disso, mas sempre aparece alguém que confirma a corrupção.
- Pois é, depois de alguns meses do protocolo do projeto na Prefeitura, recebi um recado por um amigo comum com o secretário do prefeito. Fez elogios ao projeto, mas disse que poderia facilitar a aprovação se houvesse um "agrado" ao prefeito.
- E o que você fez?
- Ora, perguntei qual o valor do "agrado". Ele enrolou e pediu alguns dias para responder. Duas semanas depois, me mandou uma mensagem pelo zap. Informou que o "agrado" seria em torno de 5% do resultado total das vendas dos apartamentos.
- Mas, você aceitou? Isso é putaria.
- Tive de aceitar, se não o projeto iria ficar dormindo nas gavetas da secretaria do Planejamento. Houve uma redução drástica do lucro. Mas, enfim, conseguimos pôr o projeto em pé.
- Cara, sempre ouço reclamarem da corrupção. Você, mesmo, era assertivo quando condenava os corruptos. Agora, aceitou a corrupção.
- Não tinha outro jeito.
- É claro que tinha. Basta politizar, levar o caso para o mundo político, dar visibilidade a isso. É claro que vai pagar um preço, mas é a guerra contra esses filhos da puta. E assim não ser um filho da puta.
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